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  Sobre eleições e amizades desfeitas

Data: 24/10/2014

 

Sobre eleições e amizades desfeitas

Imagine o seguinte caso. Você tem um colega ode trabalho que  acha que é seu amigo. Vocês costumam ir para o trabalho juntos, param para tomar um cafezinho e bater papo. Inclusive, você já deu teto e ofereceu abrigo a essa pessoa, já que ela estava longe de casa e sem grana. Você pensaria somos realmente amigos, certo? Errado! Chegam as eleições e, como você e o seu amigo  escolhem votar em candidatos diferentes, o seu amigo simplesmente exclui você dos seus relacionamentos. Exclui você do Facebook, não liga mais para combinar o cafezinho e a caminhada para o trabalho e passa a tratá-lo com frieza, como se você estivesse com alguma doença contagiosa (será que peguei ebola!?).

Tudo isso por quê? Porque você “caiu na asneira” de votar, primeiro, na Marina e, agora, no Aécio. De uma hora para a outra todas as suas eventuais qualidades foram postas em dúvida e você se transformou em alguma espécie de morto-vivo, um vampiro ou um zumbi. Você não é mais humano e deve ser mantido em algum tipo de quarentena. Todo contato pode ser perigoso, já que você pode querer sair por aí sugando o sangue ou comendo o cérebro das outras pessoas, transformando-as em novos mortos-vivos. Dito dessa maneira, até eu já estou começando a ficar com medo de mim mesmo.

É assim que tenho me sentido e creio que o mesmo esteja acontecendo no sentido oposto, com pessoas que decidiram votar na Dilma, mas o seus colegas, supostos amigos e familiares de direita o estão ou a estão massacrando por isso. Mas continuo aqui com a minha experiência, porque é dela que eu posso falar mais seguramente e com conhecimento de causa. O patrulhamento ideológico e o bullying eleitoral, nestas eleições, já passaram dos limites. Tanto "à esquerda quanto à direita", muitas e muitas pessoas chegam até você destilando ódio, intolerância, desrespeito e incompreensão, trazendo consigo verdades supostamente absolutas. Tais verdades são transmitidas a você a partir de um tom inicialmente professoral, mas, à medida que o seu interlocutor vê que você continua a insistir na sua própria opinião, o tom se torna autoritário e, cada vez mais, impaciente, visto que você não conseguir enxergar a clareza das verdades tão óbvias, certas e seguras.

Como já pregava Sócrates, a grande sabedoria está em dar lugar à dúvida e em reconhecer a  própria ignorância. Porém, certamente, dúvida é algo velho e cheio de mofo hoje em dia. Atualmente, todos nós estamos certos e vivemos enclausurados em nossas limitadas e limitantes certezas. A política, como defendia Hannah Arendt, é diálogo e debate. A política fazia parte da esfera comunicativa e, portanto, deve ser construída pelo diálogo, na tentativa de se construir um consenso. Porém, infelizmente, a dúvida, hoje, é coisa para fracos. E a política é guerra, ódio, patrulhamento ideológico e bullying eleitoral. Sócrates e Arendt devem estar rolando em seus túmulos.

E eu devo ser realmente um morto-vivo ou estar doente. Tome cuidado, pode ser contagioso!

 

Alexandre de Oliveira Kappaun

Professor Universitário e Tradutor

 




 

 

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