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  Porquê Trump?

Data: 16/11/2016

 

Por Vítor Bento (foto)

É muito provável que os trabalhadores brancos — operários das indústrias externalizadas — tenham sofrido mais do que os afroamericanos e hispânicos.

1. Abordagem errada

Sexistas, machistas, racistas, xenófobos, brutos, primários, deploráveis, foram alguns dos qualificativos usados pela elite bem pensante (a que um Gramsci actual atribuiria a nova “hegemonia cultural”) para caracterizar os eleitores que votaram Trump. Descontando o facto de, para essa elite, qualquer Presidente republicano ser indigno do lugar (releiam-se as barbaridades sobre Reagan, por exemplo), a análise baseada naqueles qualificativos, além de pedante, é errada e, como tal, politicamente inútil e até contraproducente. Desde logo, porque implicaria que metade dos eleitores americanos fossem trogloditas e que os muitos votantes de Obama que agora votaram Trump teriam sido tornados trogloditas pelo seu consolado. Nenhuma das implicações é obviamente razoável.

Trogloditas – fiquemo-nos por este agregador – há e sempre houve, sem que tenham impedido a eleição de Obama ou Bill Clinton, por duas vezes, ou a de muitos outros “dignos do lugar”. E não há nada que indique que tenham aumentado o peso na sociedade, pelo que não foram certamente o factor de desequilíbrio que ditou o resultado da eleição.

Nas democracias estabilizadas, a maior parte dos eleitores tende a estabilizar as suas preferências políticas, pelo que os grandes blocos partidários contam com um eleitorado fiel, que lhes assegura a maior parte dos votos. O que determina o resultado das eleições é o desequilíbrio gerado por movimentos marginais de três tipos de eleitores especiais: os “swingers” – que oscilam as preferências entre um lado e outro –, os “desiludidos” – que, desapontados com o candidato ou propostas do seu partido, resolvem abster-se – e os “ocasionais” – que normalmente se abstêm, mas são convencidos a votar pela retórica ou propostas de um lado da contenda.

É, pois, nestes movimentos marginais, e nas suas motivações, que têm que ser procuradas as causas do resultado. Porque é que muitos “swingers” passaram de Obama para Trump? Que “ocasionais” terá Trump conseguido mobilizar e porquê? O que terá feito muitos democratas ficarem “desiludidos”? São estas as questões relevantes. Tanto mais que a análise sugerida pelas sondagens à boca das urnas contradiz o que os clichés do pensamento dominante sugeriam.

2. Clichés derrotados

Assim, aquelas sondagens indicam que o candidato republicano encurtou (por comparação com Romney em 2012) a margem desfavorável nos eleitorados latino (oito pontos percentuais), afro-americano (7), asiático (11), mais jovem (18 a 24 anos, 6 pontos), de rendimento abaixo dos 50 mil dólares (12) e entre os não casados (10); e que os segmentos em que mais alargou a margem favorável foi entre os eleitores sem grau académico, mas com frequência universitária ou grau médio (10 pontos), entre 45 e 54 anos (5) e masculino (5).

Por sua vez, Hillary Clinton só alargou significativamente a margem favorável (face à de Obama em 2012) no eleitorado com graus académicos (8), e encurtou as diferenças desfavoráveis entre os eleitores de maior rendimento (9), mais idosos (4) e casados (4). Significativamente, entre o eleitorado feminino só conseguiu a alargar a margem favorável em um ponto. Mais: as sondagens sugerem que até a infidelidade eleitoral (democratas a votar republicano e vice-versa) terá evoluído a favor de Trump.

Note-se, porém, que o aumento ou redução daquelas margens eleitorais não permite inferir se advêm de um ganho de votos pelo candidato ganhador ou de uma queda de votação no lado perdedor. Mas podemos procurar pistas nos totais de votos. O total de votantes reduziu-se 4,3%, mas Trump perdeu 8,4% dos votos, face aos do seu correligionário em 2012, enquanto Hillary terá estabilizado a votação democrata.

Só uma análise estado a estado permitirá inferir da importância de cada uma das três categorias de eleitores para o desequilíbrio que deu a vitória a Trump. Mas com os dados agregados é razoável inferir duas coisas: i) que houve um número considerável de “desiludidos” republicanos, mas que não foram suficientes para derrotar o candidato; ii) que Clinton não conseguiu transformar esses “desiludidos” em "swingers" a seu favor (ou, pelo menos, não em número suficiente para compensar os “desiludidos” do seu lado). Sendo assim, parece mais adequado dizer que Clinton perdeu a eleição do que dizer que Trump a ganhou.

Porque falhou, então, a candidatura democrata? Não tenho pretensões de ter a resposta, nem informação suficiente para o efeito. Mas podemos explorar pistas.

Para começar, convém recordar que Trump começou por derrotar o establishment republicano, eliminando nas primárias, contra todas as expectativas e apostas, os candidatos mais conformes à linha do partido. Essa primeira e inesperada vitória, posicionou-o como outsider com forte apoio popular, o que deveria ter levado a investigar melhor a origem dessa força, em lugar da negação e do, tão massivo quanto inútil, exercício de exorcismo mediático que lhe foi dedicado praticamente até ao fim da campanha.

3. A realidade social

Conviria começar por perceber, por exemplo, que a composição racial da sociedade é muito mais desequilibrada do que o sugerido por muitos filmes e séries hollywodescos. E que a população branca não é toda classe média para cima e os outros classe média para baixo. A população branca não hispânica (designação estatística) é largamente maioritária (61,6%), embora tenha perdido quase 10 pontos nos últimos 20 anos; a população negra (designação das estatísticas oficiais) é largamente minoritária (12,4%) e tem-se mantido estável; os hispânicos também são minoritários (17.6%), embora superem os afro-americanos e ganharam quase 6 pontos desde 1995.

Embora os afro-americanos e os hispânicos tenham maior percentagem de pobres (24% e 21%, respectivamente, para uma média de 13,5%), o peso desproporcionado da população branca faz com que 41.2% dos americanos abaixo do limiar de pobreza sejam brancos não hispânicos (nh).

Em ternos evolutivos, o rendimento mediano das famílias americanas, sobretudo entre brancos e negros (hispânicos são excepção), decresceu acentuadamente desde 2007, assim como decresceram os salários reais, sobretudo dos trabalhadores menos qualificados. E a percentagem de pessoas abaixo do limiar de pobreza aumentou dois pontos percentuais desde 2000, incluindo também a população branca.

Depois, um estudo do final de 2015, co-autorado pelo Nobel Angus Deaton, contém este gráfico sobre a evolução, em vários países, das taxas de mortalidade na população entre os 45 e os 54 anos, a meia-idade da célebre crise existencial.

O surpreendente neste gráfico é a linha encarnada a cheio, que corresponde aos brancos americanos nh (a linha dos hispânicos é a azul, e a dos afro-americanos, embora omissa no gráfico, também é descendente, mas com valores absolutos mais elevados) e que, antes do virar do século entrou em acentuada contra-mão com as tendências do mundo desenvolvido. Sendo que as principais causas de morte são, destacadamente, abuso de álcool e drogas e suicídios, ou seja, sinais depressivos e de enorme frustração.

No New Hampshire – estado onde 91% da população é branca –, por exemplo, o abuso de drogas, que 25% dos adultos citaram como o principal problema do estado (com 21% a indicar o emprego), foi o tema dominante na campanha das primárias. Problema que se tem generalizado em muitas áreas do miolo rural da América. O que estará, pois, a deixar os brancos americanos de meia idade – um segmento equivalente a três quartos de toda a população negra – tão frustrados ao ponto de entrarem na via da auto-destruição?

Estas constatações não desvalorizam os problemas sociais da minorias étnicas, mas revelam uma outra “minoria”, descurada, escondida dentro da maioria.

4. Algumas explicações

Fukuyama, num artigo publicado no Verão passado, na Foreign Affairs, referia que “nos anos 1980, havia uma discussão geral sobre a emergência de uma sub-classe afro-americana – isto é uma massa de pessoas sub-empregadas e de baixas qualificações cuja pobreza parecia auto-alimentar-se ... Hoje, a classe trabalhadora branca está virtualmente na mesma situação...”. E acrescentava que “a classe social está de volta ao coração da política americana, destronando as outras clivagens – raça, etnicidade, género, orientação social, geografia – que têm dominado a discussão nas eleições recentes”.

Hoje é razoavelmente aceite que a globalização, tendo melhorado a vida no globo em geral, foi prejudicial para alguns segmentos laborais dos países desenvolvidos. É muito provável que, no caso da América, os trabalhadores brancos – operários nas indústrias externalizadas para outros países – tenham sofrido mais do que os afro-americanos e hispânicos, mais ocupados em actividades que, sendo “menores”, pertencem ao sector não transaccionável e estão protegidas da externalização e da concorrência externa: limpeza, transporte, segurança, serviços domésticos, etc., por exemplo.

Para estes últimos, todavia, e embora muitos tenham essa origem, a imigração é uma ameaça aos seus empregos e remunerações, pelo que as suas reacções ao discurso anti-imigração não é exactamente como o pensamento convencional gostaria. Não surpreenderá, pois, que Trump tenha ganho, e Hillary perdido, voto latino.

Voltando a Fukuyama, este considera que o problema dos democratas foi terem abraçado a política das identidades, descurando as classe laborais: “O partido ganhou eleições recentes mobilizando uma coligação de segmentos populacionais: mulheres, afro-americanos, jovens urbanos, gays, e ambientalistas. O único grupo com que perdeu totalmente o contacto é a classe trabalhadora branca, que foi o alicerce da coligação do New Deal de Franklin Roosevelt”.

5. Conclusão

Há, pois, muitas razões para um grande descontentamento social com o establishment político-económico, responsável pela frustração das expectativas de progresso social que ele próprio alimenta, com a propaganda política e o marketing do consumo. Razões que ajudarão a compreender melhor o sucesso eleitoral de um outsider como Trump, mais pragmático que ideólogo.

No meio de tudo isto não pode ser descontado um outro factor, mais prosaico, que terá motivado “swingers” e “desiludidos”: o natural cansaço do ciclo político e a consequente expectativa na alternância.

Mas se o establishment político, e a elite bem pensante, continuarem entretidos com as agendas politicamente correctas, e distraídos do mundo real, bem podem invectivar os deploráveis que a onda continuará a crescer e a alimentar as margens do sistema. Descer à realidade é preciso!

Público (PT)



 

 

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