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  Às favas com os escrúpulos

Data: 12/11/2014

 

 

Às favas com os escrúpulos

A notícia deste jornal sobre a suspensão do apoio à região serrana um dia após a eleição, com o cancelamento do programa instituído com esse propósito pelo BNDES, revelou-se emblemática. Destinava-se a socorrer pequenos empresários locais, vítimas da tragédia de 2011, que pretendessem retomar suas atividades econômicas, nas áreas afetadas pelo grande desastre natural.

A rigor, nenhuma novidade, porquanto a medida insere-se no bojo da grande farsa petista que caracterizou o recente pleito presidencial. Antes das eleições, nenhuma decisão que contrariasse algum mínimo interesse da população seria tomada. Vencida a disputa, às favas com os escrúpulos, pois com o voto já sacramentado tudo seria possível. Na verdade, nem bem fechadas as urnas, a presidente vitoriosa começou a fazer tudo o que tanto criticou na campanha.

É o célebre faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço. Primeiro, o aumento da taxa básica de juros da economia, vergastada como intolerável e tida como receita do governo tucano. E agora a elevação dos preços dos combustíveis, com seus efeitos diretos sobre os índices de inflação, que permanece doendo no bolso dos assalariados e das donas de casa pelo Brasil afora. A alta era inevitável, uma vez que os produtos eram vendidos por valores inferiores aos comprados no mercado internacional, mas foi escamoteada durante as eleições.

As contas de energia sofreram majorações da ordem de 18% nos últimos doze meses. Serão ainda mais pesadas em 2015, em razão dos custos de financiamento do setor, a serem suportados pelos consumidores. Dilma Rousseff diz que também haverá ajustes em outras áreas, embora continue imprecisa, ao deixar de nomear com clareza em que contas promoverá os acertos necessários.

Em contraposição ao discurso eleitoral, o governo vai rever subsídios de financiamentos de bancos públicos, mexer na regulamentação das pensões por morte, seguro-desemprego, abonos e auxílio-doença, com reduções de direitos antes considerados inegociáveis. Coitadas das viúvas, com suas rendas mensais aviltadas desde sempre, e misericórdia com desempregados, certamente obrigados a recorrer ao bolsa família, como alternativa de sobrevivência. Não se discute o mérito das decisões, mas o que não se admite é que se aja em sentido diverso dos compromissos assumidos em campanha.

No mesmo passo, será mantida a orgia de gastos com a máquina pública e com a manutenção de mais de três dezenas de ministérios e outras secretarias, em cima dos quais fatia-se o poder dentro do mais puro e vergonhoso fisiologismo parlamentar e partidário. Não será extinta uma pasta sequer, “nem que a vaca tussa”, bordão que agora substitui o “no que se refere”, típico da pobreza vocabular e da dificuldade de expressão da presidente lulopetista.

É a eterna distância entre o discurso e a prática. Ao longo do processo eleitoral, promete-se tudo, Deus e o mundo. Em seguida, a conversa é diferente. Antes da campanha, a presidente afirmava-se contrária às restrições à liberdade de expressão e comunicação defendidas pelo PT, mas, passado o pleito, admite a regulação econômica da mídia, a fim de quebrar monopólios ou oligopólios que entende existentes no país. Trata-se de um absurdo. Na realidade, o que se quer é criar uma mídia partidária ou comprometida com o PT, no melhor estilo stalinista ou bolivariano-venezuelano.

O candidato, ciente do vale-tudo, faz e acontece. É o velho estelionato eleitoral, que denunciei neste espaço, hoje ampliado e edulcorado pelo marketing político, cujo único compromisso é com a vitória do projeto sob sua direção.

 

paulofigueiredo@uol.com.br




 

 

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