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  Torre de Babel

Data: 18/07/2013

Torre de Babel

 

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Criado em Quinta, 18 Julho 2013 14:26

População e Poderes não se entendem, por falarem idiomas diversos. A constatação não é de hoje, pode ser lida no “Dicionário de Política” de Norberto Bobbio; na Itália de 1983, o fenômeno já fora constatado, estudado, equacionado. Agradeço a Júlio Ambrózio o exemplar que tenho em casa. 

Resumindo: partidos são instrumentos recentes, consolidados entre o final do século XIX e início de XX, às vésperas da 1ª Grande Guerra. A sua origem deveu-se à necessidade da sociedade civil encontrar maneiras racionais de disputar as eleições à medida que ocorria a transição entre as monarquias absolutistas e os regimes democráticos; surgiram, assim, partidos liberais e socialistas atendendo aos interesses das classes mais favorecidas e do proletariado. A forte corrente social-cristã viu interrompida a sua participação pela reação do Papa face à invasão do Vaticano quando da reunificação da Itália. 

Nascidos ferramentas da vontade popular, os partidos ganharam vida própria. Constituíram-se núcleos dirigentes bem assessorados, e esses viraram o elo entre o povo e os mandatários eleitos. A sua posição ímpar permitiu a busca e obtenção de condições de independência face à população: de um lado o financiamento público e, de outro, o preenchimento de um crescente número de cargos públicos, não só de natureza especificamente política como também econômica conforme os Estados avançavam na s áreas da prestação de serviços, e mesmo industrial e comercial. Aos poucos, as estruturas partidárias passaram a ser perenes, os seus dirigentes e os mandatários construíram carreiras permanentes através da sucessão de mandatos, se preciso permeados por nomeações a cargos de confiança. Completando o movimento de meia volta, volver, os partidos passaram a instrumentalizar a sociedade, na busca pela estabilidade de seus próprios projetos orgânicos e pessoais. As organizações intermediárias da sociedade: sindicatos, associações demoradores, entidades estudantis, movimentos camponeses, associações diversas, foram cooptadas, deixando de representar os seus filiados junto aos partidos, para representar os partidos junto aos seus aderentes... Assim era na Itália de 83, assim é no Brasil de 2013. As militâncias partidárias movidas à paixão desapareceram, cedendo o lugar ao profissionalismo chapa branca. Os partidos acumularam poder, chamaram cinicamente para si o papel de arautos da sociedade, embora tenham desertado o convívio com a mesma de janeiro a dezembro de todos os anos, fora as campanhas eleitorais. Onde estão os partidos no nosso dia a dia? Ao processo descrito e ao resultado ao qual nos levou, Bobbi o chama de “partitocracia”. 

Quando a voz claríssima das ruas brasileiras anseia pela democracia participativa, os partidos e mandatários se fecham em torno da democracia representativa, que é seu modo de vida, sua bóia, seu futuro. As ruas tratam de políticas públicas, os poderes as ouvem falar sobre eleições e carreiras políticas. O povo grita querer administração eficaz e transparente, as Autoridades respondem com reformas políticas onde tudo pode mudar desde que nada saia do lugar. Quem paga imposto deve continuar a fazê-lo e quem vive na Ilha da Fantasia não deve ser perturbado no deleite dessas vantagens que são “inerentes aos cargos”. 

Aqui em Petrópolis, o Regimento Interno da Câmara, revisto em dezembro 2012, revogou o Estatuto das Cidades, o Orçamento Participativo deixou saudades e as leis orçamentárias continuam escritas em sânscrito. 

Estamos diante de duas concepções, que nos colocam a todos diante da opção entre a política a serviço do povo, ou o povo a serviço da política.

 

Philippe Guédon 




 

 

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