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  Porta do sem fundo - Denilson Cardoso de Araújo

Data: 14/12/2019

 

Porta do sem fundo

Denilson Cardoso de Araújo - Escritor


Quando vi a revolta de muitos com o especial do Porta dos Fundos, bastou saber a sinopse, para me solidarizar com os rebelados. Afinal, um Jesus riponga, gay e drogado, que se masturba escondido, e Deus, José e Maria numa espécie de triângulo amoroso carnal, é sim vil ataque à fé cristã. Quando houve o atentado ao jornal Charlie Hebdo, me solidarizei com as vítimas, mas percebi que aquele jornal cruzara um limite grave. E fiz reflexões de que seguem trechos.

Ser refém é ruim. Conheço famílias reféns. De filhos pródigos, porque não agiram a tempo de evitar o desabamento no vício e na ilicitude. E reféns de abusadores de liberdades, pois permitiram o intolerável. Doutrinador da tolerância, Stuart Mill ensinou que só deve ser permitida publicamente a prática daquilo que pode ser incentivado a todos. Pode ser estimulado o abuso? Pode um ocidental, frente à principal mesquita de um país islâmico, onde a mera reprodução pictórica de Maomé é vedada, fazer chacota com o fundador do Islã? E, na piada, exibir o profeta em cartum da Charlie Hebdo: nu, de quatro e com uma estrela no ânus sob jocosa inscrição “Nasce uma estrela”? A livre expressão pode tudo? Não!

A globalização fez do planeta grande praça à frente de toda igreja, casa e mesquita. Discursos e caricaturas são conhecidos ao toque do instante. O que exige maior cuidado. Da imigração, países europeus são, hoje, também muçulmanos. A leviandade de se permitir agressões a símbolos cristãos, não obriga a que todo mundo leve na boa o achincalhe da fé que cultivam. Nem acho lícito que o esforço de todos sustente o abuso de alguns. Garantir, às custas do Erário, que sigam desenhando Deus Pai, Cristo e o Espírito Santo se sodomizando, em vilipendiosa brincadeira, me parece contrassenso. Custear policiais como guarda pessoal de tal minoria boêmia pode roubar dos miseráveis sem champanhe e sem direitos de expressão, mais dos serviços, saúde e educação que lhes faltam.

Em nome da livre manifestação, na passagem do Papa no Rio, militantes gays e abortistas reproduziram masturbação com o crucifixo. Que, vale lembrar, um dia foi cena da menina possuída pelo demônio, no filme O Exorcista. Algo não vai bem quando esse abuso ocorre onde já se estabeleceu que o direito de livre expressão não é absoluto. O Brasil proíbe a propaganda nazista e a divulgação de certos discursos a plateias infantis, impondo classificação etária de produtos culturais. O chute na santa é vedado porque o que para uns é só estátua pode ser o sagrado de outro. Para muitos, o crucifixo é símbolo sagrado.

A França está ficando tão refém do seu discurso de liberdade de expressão radical, quanto os Estados Unidos, de seu discurso de liberdade de portar armas. Quando massacres acontecem nas escolas de um e nas redações de outro, parece uma ingenuidade não revisar tais conceitos. A liberdade de expressão é boa herança, mas seu abuso, absolutamente, não. O Charlie Hebdo opera uma pedagogia do escândalo e do bullying. Que não seja modelo. Quem conhece a guerra do dia a dia em nossas escolas sabe do que estou falando.

E acresço. O Porta dos Fundos opera uma pedagogia do escândalo e do bullying. Deve ser repudiado. Lembro que até o Papa Francisco, homem tolerante, condenando o ataque à revista francesa, à época também chamou a atenção a certas sacralidades: “se xingar minha mãe, espere um soco”. Que ninguém soque ninguém, mas que ninguém xingue mães ou tripudie da fé. 

denilsoncdearaujo.blogspot.com



 

 

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