Petrópolis, 25 de Setembro de 2022.
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  Trump agradece

Data: 07/11/2016

 

 

 

Por Elton Simões - Mora no Canadá. Formado em Direito (PUC); Administração de Empresas (FGV); MBA (INSEAD), com Mestrado em Resolução de Conflitos (University of Victoria)

Se o mundo não tiver acabado, 3af é dia para coçar a cabeça e refletir. Tentar fazer sentido disto tudo, criticar e, se a sabedoria estiver presente, ouvir muitas autocríticas. Diante de uma das mais bizarras eleições nos EUA, ao fim e ao cabo, cabe perguntar o que deu ou está errado. Certamente existe material para reflexão.

Diante do discurso racista, sexista, isolacionista, messiânico, de Trump, seria fácil prever ao final de 2015 que sua candidatura não iria longe. Fácil, e errado. Quando as expectativas degeneraram em realidade, aconteceu o contrario do previsto.

As vésperas da eleição, as pesquisas indicam os dois candidatos tecnicamente empatados, dentro da margem de erro. Em outras palavras, a narrativa negativa, agressiva, discriminatória está, pelo menos nas pesquisas, em condições de vencer as eleições no país mais poderoso do mundo. Em um ano que já trouxe a vitória do Brexit, é bom prestar atenção nos sinais.

Como sempre, existe o caminho fácil. Para explicar a situação, bastaria rotular os eleitores republicanos de 2016 como desumanos, racistas, sexistas, violentos, selvagens. Daria até para estender a lista de adjetivos negativos. Seria, fácil e simples. Mas simplesmente errado.

No mínimo, o empate técnico nas eleições americanas apontam para o fato nu e cru de que metade dos eleitores americanos não se sente tendido, ouvido ou representado. Por isso, vota em um candidato com discurso tão extremo ancorado em meias verdades e mentiras completas.

De novo, a saída fácil seria culpar o eleitor. É fácil, simples e comum. E não é novo. Todas as vezes que a escolha eleitoral contraria desejos e expectativas, políticos, analistas e mídia são rápidos em culpar o eleitor.

Nestas análises, o voto popular somente é sábio se o eleitor votar como se espera dele. Felizmente não funciona assim. Eleitores são seres pensantes, ainda que não concordemos com suas conclusões (e votos). Têm seus próprios interesses e vantagens e votam de acordo com eles.

O argumento tradicional é de que os eleitores são desinformados. Mas não é para isso que servem políticos e campanhas politicas? Não seria o caso de admitir alguma autocritica sobre como a maneira como os Democratas conduziram sua campanha e posicionaram sua candidata?

E maneira geral, analistas e Democratas culpam pelo fenômeno de desastre potencial representado pela candidatura Trump nos eleitores homens e brancos. E as pesquisas realmente confirmam que Trump tem a maioria folgada neste grupo. Por outro lado, Hillary lidera folgadamente entre as mulheres.

Mas quando os comparam estes resultados com o discurso de campanha eleitoral dos Democratas, talvez se encontre uma boa explicação para o fenômeno. A verdade é que, durante toda a campanha, a candidata Democrata jamais propôs, reconheceu a existência ou endereçou o grupo que agora apoia Trump.

Hilary fez ao contrário. Frequentemente aderiu a política de identidade. Buscou apoio baseado em raça, gênero.  E hoje tem os votos majoritários destes segmentos. Possivelmente ajudou a criar o impensável no corpo do inaceitável.  Ao não serem ouvidos (e possivelmente vistos) pelos Democratas, os agora eleitores Trump se agregaram em torno o Republicano, apesar (e talvez não por causa) de suas propostas.

O empate técnico nas eleições americanas é um testamento a incapacidade dos Democratas em enxergar um pouco além de suas próprias ideias e interesses.  Falharam em ouvir, dialogar e incluir.

Os Democratas esqueceram em 2016 que, na democracia, é o importante criar soluções que atendam ao conjunto dos eleitores. Ignorar largos setores da população baseados em rótulos e  política de identidade não é saudável.

Traz conflitos antes, durante e depois da eleição.

Perde o país. E Trump agradece.

O Globo

 




 

 

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