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  AS ARITMÉTICAS

Data: 10/09/2015

 

 

AS ARITMÉTICAS

Philippe Guédon

 

A velhice propõe passatempos, entre os quais a busca da lógica na Administração pública. Neste quesito, aliás, os idosos no Brasil estão muito melhor servidos do que seus colegas na imensa maioria dos outros países, pois desvendar como raciocinam os nossos políticos é muito mais desafiador.

Aprecio ler jornais, embora venham estes diminuindo os tipos e economizando na tinta. Mas o esforço é recompensado quando, com a ajuda de iluminação farta, óculos e lupa, consigo decifrar um texto como o da coluna de Miriam Leitão no O Globo. Dia desses, por exemplo, a colunista abordou o esforço do Governo Federal na caça às despesas que precisam ser administradas com maior rigor, o que nenhum cidadão poderá deixar de aplaudir. Entre as áreas que mais demandam a atenção presidencial, estaria a Previdência Social. Até aí, eu me sentia em comunhão com as reflexões da Senhora Dilma; experimentei divergências a seguir, quando constatei que, mais uma vez, quando o Governo fala de Previdência Social assim de modo genérico, está se referindo ao regime geral, isto é ao INSS. Talvez por modéstia, os regimes próprios, esses que interessam os servidores públicos, nunca são mencionados. E olhem que já contribuíram em boa parte para a quebradeira gaúcha e ainda muito ouviremos falar a respeito no próximo futuro, já agora interessando outros Estados e inúmeros municípios. Pois Brasília estaria descobrindo, com um misto de espanto e mágoa, que o INSS vai ver o seu déficit saltar de 88,9 bilhões em 2015 para espantosos 124,9 bilhões em 2016. O crescente desequilíbrio previdenciário tiraria o sono presidencial e de alguns ministros.

Esclareceu Miriam Leitão que os regimes próprios não estavam incluídos mos quase 125 bi acima, pois o seu déficit seria menor, da ordem de  70 bilhões de reais no ano que vem.

Quero ajudar a Presidência em seu raciocínio. Há que se ter cuidado com os números; se enfiarmos a cabeça de uma pessoa num forno a 74º centígrados e os pés num freezer a zero graus, a média será de saudáveis 37 graus, mas o cobaia estará mortinho da silva.

A comparação de déficits do RGPS com os dos RPPS somente procede se levamos em conta os universos cobertos. Em 2012, o IBGE apurou que o funcionalismo público dos três âmbitos de governo, representava 1,6% da população. Vamos admitir que cada um tenha três dependentes, o que nos leva a estimar em 6,4% a parcela da população cuja renda provém dos cofres públicos. Os demais 93.5% não constam das folhas de pagamento do poder público nem se beneficiam dos RPPS.

Se dividirmos o rombo do INSS (RGPS), previsto em 124.9 bilhões, por 191 milhões, encontraremos um déficit per capita de $ 650 reais. Já do lado dos RPPS, o rombo de 70 bilhões é gerado por apenas 13 milhões de interessados, o que representa um vermelho per capita além de $ 5.300 reais. E essa baita diferença entre duas castas de brasileiros não parece saltar aos olhos de Brasília...

 

O que a aritmética tem de bom é o não amoldar-se à vontade do Poder. Se erro, digam-me onde; se estou certo, vamos parar de gerar diferenças e de empurrar a conta para cima dos distantes do Poder?




 

 

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