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  AS CASTAS

Data: 29/05/2015

 

 

AS CASTAS

Philippe Guédon

 

         A Humanidade cedo criou sociedades pautadas pelo conceito do “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Assim nasceram hierarquias religiosas, dinastias reais, a nobreza do sangue azul, os cavaleiros, os samurais e outras elites. Devemos ao Iluminismo a contestação do poder de direito divino e as bases da república igualitária: liberdade, igualdade e fraternidade. A Revolução Industrial gerou nova elite: a dos empresários, e converteu os camponeses e artesãos em proletários; baixou, por uns tempos, o facho brilhante do Iluminismo. Pelos idos de 1980, surgiu o tumor ao qual Norberto Bobbio chama de “partitocracia”: os partidos, concebidos para representar o povo, usurparam o papel de protagonistas e de top de linha.

         A História registra que os dominantes, a cada momento, atribuíram-se o máximo de privilégios à custa dos dominados. Desde os faraós, o costume permanece. Mas algo mudou, e azar o nosso: ao longo de milênios, o topo da pirâmide sempre prezou o mérito (força, destreza física, cultura, fé, talentos, até justiça ou violência) e a honra (códigos da Cavalaria, bushidô). O advento da partitocracia nos levou ao fundo do poço, pois ela substituiu os méritos pela  esperteza rasteira, e a honra pelo “é dando que se recebe”.

         As castas dominantes que o Iluminismo fulminou cultivavam a grandeza. As geradas pela partitocracia não se pautam por nada que preste. A ver se exagero: a fim de corrigir os efeitos da má gestão do mandato presidencial recém-findo, somos brindados com um ajuste fiscal brabo. Desempregados, segurados do INSS (e dos RPPS?), doentes, viúvos e viúvas, trabalhadores e empresários, são convidados a contribuir para o ajuste; por alguma razão que deixou de ser informada, o setor público federal manteve seus 39 ministérios e 22.000 cargos de confiança. Sejamos justos: colaborou passando a régua em investimentos, outra tesourada em quem deles carece. Pior: com um raro mau gosto, as áreas mais nobres do serviço público escolheram este preciso momento para se concederem mimos como aumentos variados, auxílio-educação para as proles dos membros do Judiciário, e até decidiram construir um monstrengo apelidado de “parlashopping”. Em síntese: tendo por vértice da tempestade o monopólio eleitoral partidário – pois os partidos indicam, direta e indiretamente, quem poderá sentar nos  Parlamentos, à testa dos Executivos e no Supremo ou ocupar cargos de  confiança -  as castas lá do topo repassam a conta ao setor privado (e aos mais ferrados dentre os ferrados), e ainda se atrevem a zombar da desgraça alheia, multiplicando os deleites do arquipélago da fantasia.  

Reparem que a operação Lava Jato está em curso, há mais outras que nem conseguem espaço no noticiário, a vergonheira come solta, mas aparentemente nossas mais altas autoridades consideram que ninguém irá indignar-se com a divisão da população entre moradores do olimpo, aptos a desfrutarem de infindáveis confortos e facilidades, e o povão que deve pagar todos os aumentos de todas as contas, tendo por receitas ingressos regularmente reduzidos.

 

Haja panela!




 

 

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