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  CONTO DE NATAL

Data: 23/12/2014

 

CONTO DE NATAL

 

Philippe Guédon

 

Antes que se apague de vez a memória, gostaria de contar um episódio natalino, que muito me tocou e talvez faça algo semelhante com alguns leitores da TRIBUNA.

24 de dezembro de 1955. Servia eu, como sargento, no 3º batalhão do 93º Regimento de Infantaria de Courbevoie, então estacionado em Meknès, Marrocos, onde haviam ocorrido violentos distúrbios semanas antes.

No final da tarde, recebo uma ordem: “o 2º Regimento Estrangeiro de Cavalaria convidou um sub-oficial para representar o 93ème no jantar de Natal deles. Você foi designado. Capriche no uniforme”. “Aceitei” o convite, bati continência e fui tomar banho e me tornar apresentável (os meus padrões de rigor militar ficavam muito aquém dos vigentes na Legião, disso não tinha eu a menor dúvida).

Chegado ao Quartel do 2º REC, mal entrei nas instalações, senti a mudança de clima: passagem aberta nos corredores, continências de todos os praças, universo bem diverso do que reinava no nosso Batalhão formado pelo Contingente de convocados que cumpria seu serviço militar de trinta meses.

No refeitório enfeitado com faixas e bandeiras, inscrições em alemão desejavam uma “Frohe Weinacht”. Devidamente cumprimentados o Coronel comandante e as demais autoridades, lá se foi o sargentinho convidado sentar na ponta da mesa principal. Diz o lema da legião: “Legio Patria nostra”. Particularmente naquela época, uma década após o final da II Guerra, eram muitos os Legionários que haviam procurado a Legião como refúgio a uma vida atropelada pelo conflito. Quantos eu conheci que haviam sido levados a pegar em armas em 1939, ou já alguns anos antes (espanhóis, por exemplo), e que desde então sempre haviam combatido ou amargado campos de prisioneiros quando, por azar, estavam do lado errado no mau momento. Quinze, vinte anos de vida militar ininterrupta sob uniformes diversos. E, finalmente, o alistamento na Legião por prazo de 5 anos, e novas campanhas militares, sobretudo na Indochina e, depois, na África do Norte.

Manda a tradição que o Comandante ofereça um presente de Natal a cada Legionário. Aquela é a sua Pátria, a sua casa, a sua família,

Ao final da refeição, um legionário veio me ver e, devidamente empertigado, pediu-me em francês carregado de sotaque, se aceitaria acompanhá-lo até o seu alojamento. Pois lá fui eu.  Eu já conhecia os alojamentos clássicos dos vinte “triliches”, dez de cada lado, embora não a ordem impecável que reinava naquele. O Legionário caminhou até o seu canto no imenso dormitório, e, pegando num embrulho, ofereceu-me, dizendo: “Sargento, ganhei um presente do Comandante, fiquei grato, mas eu gostaria que o levasse”. Claro que recusei, imaginando que era bem provável que o Natal e a vida me reservavam bem mais amenidades que ao Legionário. Mas ele insistiu, dizendo: “Aceite, por favor. Como verá, é um álbum de retratos. Sargento, a quem mostraria minhas fotos? Não sei de minha família e meus colegas não vão se interessar...”

Engoli em seco, agradeci, peguei o álbum que tenho até hoje e fui-me. Em verdade, fugi. Nunca me tinha ficado tão evidente a chocante diversidade entre as vidas que nos são reservadas. Eu vivia – na vida civil – em condições excepcionais em Paris, e tinha na minha frente quem não tinha com quem compartilhar uma lembrança.

 




 

 

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