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  Reflexões sobre as associações de moradores

Data: 06/03/2014

Reflexões sobre as associações de moradores

Criado em Quinta, 06 de Março 2014 11:00

A Federação das Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro (Famerj) nasceu em 1978. Representou, de certeza, o maior evento político gerado no Brasil, até vir a ser esterilizado pela cooptação partidária. Soou irônico, no episódio, o eco do discurso de Jó Rezende que veio algumas vezes a Petrópolis incentivar o movimento que nascia forte: as associações não podiam fazer distinções entre os residentes de suas áreas nem podiam sujeitar-se à atração pelos partidos políticos. As belas intenções não prevaleceram.

Escrevo estas notas na minha qualidade de morador. E de participante do processo, sobretudo nos seus primórdios, quando criamos a Associação de Moradores de Itaipava (e dos Distritos em geral) a partir de sugestão de Renatinho Rocha Miranda, recém-chegado do Rio onde assistira ao nascimento da Famerj. Infelizmente, Renatinho veio a nos deixar prematuramente, como aconteceria com Zanatta. Orgulho-me muito em ser o sócio nº 1 da Amai-Itaipava, mesmo que não possa mais ir lá como gostaria. A Amai-Itaipava nasceu quando com sua atuação destacada no acompanhamento da dragagem do Piabanha (administração do Dr. Jamil Sabra) graças ao Secretário de Obras de então, Marcelo Iliescu.

Incentivadas por Paulo e Ana Maria Rattes, as associações que existiam à época, informais e muito atuantes, organizaram o Conselho das Associações de Moradores de Petrópolis, o Campe. Eram seus membros, se a memória ainda me ajuda um pouquinho, Amai-Itaipava (Moraes e Glimauro, Antonio da Mme. Machado e da Telefônica, Oscar, Walmir, irmãos Braga, Ney, Celso e seu pai, Patrícia), Amai-Ingelheim (de Vera Gondim, Domingos Bernardo da Silva e Sá), Mosela, Manoel Torres (José Hugo de Souza, Claudia Serranú), Bingen, Capela (Fernando Castro), Duarte da Silveira (Chico...Duarte da Silveira), Independência (Alcindo Cunha), Centro (Renato e Graça), Moinho Preto (Flávio Muniz). Logo a seguir surgiriam as AM´s do Centro Histórico (Dr. Rodolpho Born), São Sebastião (Alfredão e Mário Costa Fº), Siméria (Roberto Soares, Valtair), Quitandinha (Sr. Arcanjo, Giriu), Osvéro Villaça (Tia Alice), Barão do Rio Branco, Vila Felipe e outras e outras, até serem mais de 200. O Campe virou Federação (Fampe), e muitas Associações seguiram nascendo inclusive a partir da AMAI como a Fazenda Inglesa, Pedro do Rio, Posse, Correas e outras. Lideranças surgiram (Ângelo Zanatta, Alcindo, Duda, Bolão, Bruno, José Hugo, Rosângela), nasceram suas divisões (Udam, Upami e Fórum) e, sobretudo, o drama anunciado aconteceu, a cooptação das Associações de Moradores, como já tinha acontecido em outros meios. Erro crasso, transformando em partidária uma ação coletiva necessariamente plural.

A decadência das Associações de Moradores seguiu-se, como já a haviam previsto Paulo e Ana Maria Rattes. A independência não convive com o mecenato; no exato momento em que melhorias e obras dependem de apoios eleitorais, e em que as lideranças assumem cargos de confiança na máquina pública, o movimento troca as reivindicações pelos escambos de apoios contra favores. Dou a mão à palmatória, achei que Paulo Rattes tinha sido severo demais na sua advertência em defesa da independência total do Campe em relação à PMP. A gestão participativa naufraga no recife da benesse; o diálogo entre iguais passa a ser relação de subordinação. O poder, que emana do povo, migra para os partidos...

O prefeito Rubens Bomtempo, aos meus olhos, quase inverteu o processo de enfraquecimento da organização popular quando instituiu o Orçamento Participativo em Petrópolis, entre 2001 e 2004/2005. Saudades.

Concluo que o Movimento das Associações de Moradores tem que se reinventar. Penso nas pessoas da base, nos moradores, que poderiam ser protagonistas mas cedem o poder que a Lei hoje lhes concede. Ou renasce um Movimento de Associações de Moradores independente dos partidos, ou a gestão participativa continuará confinada à periferia do processo. Associações de moradores que fazem “opções partidárias” em nada diferem das centrais únicas (assim chamadas por serem muitas) do PT, do PDT, do PROS ou de que Partido mais seja. Esta é apenas a minha convicção, mas nela estou disposto a investir o finalzinho do estoque de energia participativa de que ainda posso dispor.

Também sob este prisma, concluo que o nosso sistema partidário é o maior responsável pelo primitivismo de nossa vida política.

 

 Philippe Guédon 




 

 

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